Economista-chefe da Warren Rena afirma que novo arcabouço fiscal agrada por unir o limite de gastos e superávit primário, mas não vai zerar o déficit em 2024.
As linhas gerais do novo arcabouço fiscal apresentadas pelos ministros da Fazenda, Fernando Haddad, e do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, na quinta-feira, agradaram o mercado por unir as partes positivas de duas âncoras fiscais: a meta de superavit primário e o teto de gastos, na avaliação do economista-chefe da Warren Rena, Felipe Salto. Mas a proposta não garante ao governo zerar o rombo das contas públicas em 2024, como previu o ministro.
O especialista em contas públicas que criticou a modelagem rígida do Teto de Gastos, quando ele foi aprovado, em 2016, elogiou o novo arcabouço fiscal. Segundo ele, a nova regra fiscal é um “divisor de águas”, contribuindo para o avanço de agendas mais complexas. Ele ressalva, no entanto, que “não existe regra fiscal perfeita, nem a regra fiscal sozinha vai resolver os problemas estruturais da economia brasileira, nem das contas públicas”.
Há uma regra de gasto. Ela tem uma essência importante, que é o controle baseado na trajetória da receita, mas tem também uma banda. O gasto não pode crescer nem menos do que 0,6%, nem mais do que 2,5%, descontada a inflação (em termos reais). Esse conjunto de regras agradou, porque, mesmo que o governo não consiga toda a receita adicional para produzir esse resultado primário positivo, essa trajetória é muito positiva. Mas zerar o deficit, já no ano que vem, acho muito difícil”, diz Felipe Salto. Para ele, o ministro Fernando Haddad conseguiu marcar um ponto porque, na sua avaliação, o arcabouço fiscal dá força para a equipe econômica avançar em outras pautas mais complexas, como a Reforma Tributária.
Riscos
Como o ajuste proposto prevê não apenas o controle das despesas, mas também o lado da receita, o governo ainda terá que detalhar de onde virão os recursos. “Existe um risco de haver a dificuldade de comportar as despesas que já estão contratadas na regra de gasto que foi proposta, de 70% do crescimento passado da receita líquida. Logo, se a receita líquida não estiver crescendo muito, o gasto também não poderá crescer muito”, diz Felipe Salto. Para ele, a proposta é muito pró-cíclica, o que obrigou o governo a criar a banda entre 0,6% e 2,5% de crescimento real da receita. “Não tem mágica, não vai ter uma lei complementar que, ao ser aprovada, vai levar o Brasil à austeridade fiscal ou à responsabilidade fiscal como um passe de mágica. O que precisa haver é o compromisso político em torno da regra. Mas o primeiro passo foi dado”, acrescenta Salto.
Mercado
O economista-chefe da Warren Rena avalia que o ajuste apresentado pelos ministros do Planejamento e da Fazenda teve boa aceitação no mercado financeiro sobretudo por apresentar uma regra para controlar os gastos. “Acho que, na média, agradou (ao mercado). Houve algumas opiniões mais céticas, sobretudo em relação ao peso que a arrecadação terá na trajetória de resultado primário que o governo está se comprometendo a realizar. No entanto, há uma regra de gasto. Ela tem uma essência importante, que é o controle baseado na trajetória da receita, mas tem também uma banda”, afirma Salto. “A nova regra já produz uma melhora expressiva na trajetória da dívida”, aponta o economista como outro motivo para a reação positiva do mercado.
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